quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Santa Cruz de Minas


Ela o achava pouco para si.
Principalmente, por ser tão cobiçada, desde muito nova e além do mais ter ganhado o Concurso da Garota Santa Cruz de Minas, em primeiro lugar.
Acontece que isso já fazia tempo, e ela cansou de esperar. Deixou de acreditar em contos de fada e de assistir novelas da Globo.
Sabia que o empresário rico carioca não viria mais, e ela continuaria em Minas Gerais, sem nunca ter pisado em Copacabana.
Por isso, aceitou o pedido de casamento. Por pura conveniência, já que ela pagava R$200,00 de aluguel e indo viver com ele não pagaria nada.
Levou junto consigo, seus poucos pertences e um cadinho de estupidez, como se dizia em sua cidade.
Em contrapartida, seu companheiro era generoso, sensível e trabalhador.
Trabalhava na peixaria de  um supermercado considerado grande, se tratando do menor município do país. E toda vez que voltava do trabalho, lhe trazia chocolates em promoção, ou flores barateadas por estarem prestes a murchar.
Mas nunca aparecia de mãos vazias.
Pra ela, nada era agradável, nem a geléia de morango, sua preferida, porque o frasco cheirava a peixe, os chocolates,e as flores também.
Sentia o cheiro à distãncia, e sabia sempre quando ele voltava do trabalho, com 5 minutos de antecedência. Ia dormir cedo, sempre, e antes dele para não se sentir dormindo com um Atum gigante.
Tinha vergonha, quando ia ao mercado  e o via entre sangue e escamas.
Ela sentia falta de sua irmã, que fora morar no Rio de Janeiro e pediu a ele um celular de presente.
Ele sabia que demoraria um ano juntando dinheiro para tal mimo, mas tudo valia a pena por ela. 
Tentado pela vontade de satisfazê-la, foi à Casas Bahia e comprou o telefone.
Só não entendeu por que pagaria, não em um, mas em dois anos.
Entregue o presente, nada de euforia, de recompensadores beijos,apenas um insosso: obrigada!
Não faria festa por um celular que cheirava a Taínha.
Passou a falar sempre com sua irmã. Sobre o desejo de conhecer o Cristo Redentor, sentir a brisa do litoral em seu rosto, pisar em areia branquinha, coisa que nunca havia feito em sua vida. E também, em seu desprazer por estar casada com o homem que não era o dos seus sonhos.
E que cheirava a peixe.
Ele continuava a trabalhar muito e certo dia foi chamado na sala da gerência e promovido a encarregado da Padaria do mercado. Tomou banho no trabalho mesmo, se perfumou, chegou mais cedo em casa.
Dessa vez, sem o costumeiro aroma que alarmava a esposa há cinco minutos de distância. E ele a ouviu ao telefone com a irmã:
- Eu não o suporto! Ele fede a peixe.
Doeu feito punhalada no peito. Ele não pôs os pés em casa neste dia. Nem em nenhum outro.
Passados os dias ela chorou e sofreu.Passados os meses também.
Durante muitos anos sentiu saudades e cheiro de mar.  

1 comentários:

Giovani R. disse...

Que triste mas muito bonito. Ual um único momento destruiu muito tempo de convivencia, é. =)

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