sábado, 3 de março de 2012

A pedra no caminho de Drummond, por Lygia Fagundes Telles

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“- Li o livro do Carlos Drummond – ele disse. E prosseguiu com uma careta: – Horrível! Então aquilo é poesia? Eu também sou moderno, gosto dos modernos, mas assim também é demais!
- Pela primeira vez ouvi hoje alguns versos dele. Gostei muito! – confessei.
- É impossível que você tenha gostado! – retorquiu o poeta. – Ouça só esta maravilha que tive a paciência de decorar… (…) – Começou:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(…) Calou-se e ficou a me olhar ansiosamente. Dei uma risada:
- Não acho horrível coisa nenhuma! Acho gozado – exclamei.
O moço da gravata-borboleta tirou então do bolso alguns versos que compusera.
Leu-os. E depois disse:
- Como você acaba de ver, nos meus também não há rima nem métrica. Mas há ideia e ritmo, compreendeu? Ao passo que…
- Sim, eu sei! – interrompi-o, impaciente. Não há como um dia de mau humor para se dizer as verdades todas. Pensei naquele alexandrino e não resisti. Disse-lhe: – Mas o fato é que já esqueci sua poesia. E não esqueci e “nunca me esquecerei desse acontecimento” a que você acaba de se referir.
(…) Fui pela rua com o livro debaixo do braço e pensando em meu exame. A nota era muito baixa e isto era uma coisa aborrecida, apenas aborrecida. Mas inesquecível. Como se fosse uma pedra no sapato. No sapato não, que também era demais. Mas uma pedra no meio do caminho, bem no meio do caminho. Está claro que seria fácil contorná-la. Mas, em redor de mim, fisionomias empedernidas também iam encontrando outras pedras: um encontro desfeito por causa da garoa, uma carta que não chegou no momento desejado, uma vaga que foi preenchida por outro… Pedras, pedras, pedras. Haverá outros encontros, chegarão outras cartas, abri-se-ão muitas outras vagas. Mas a garoa caindo forte justamente naquele momento, e o carteiro passando reto, e aquele sujeito sentado num lugar que quase foi nosso… Não, esses acontecimentos nunca mais serão esquecidos.
Agora eu já não achava essa poesia gozada. Tinha um autêntico gosto de vida e era um gosto bem amargo.”

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

One Minute Puberty

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

MEU CORPO NA OBRA - OLAFUR ELIASSOM

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T. Pinheiro deitada no chão da Pinacoteca

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

QUERO FICAR NO TEU CORPO

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Queria dormir em seu braço no lugar dela
Sentir seu perfume único, doce e inebriante
Contemplar as estrelas a seu lado na janela
Ao nascer do dia sentir o astro rei radiante

Ouviria todas suas histórias, calada
Fazendo jus à outra, que fica quieta
Dividindo diária e insossa salada
Seguindo à risca a rígida dieta

Traçada por ti como a ordem certeira
Do que se entende por bem viver
Pensar mal do irmão de nenhuma maneira
E sem terapia escolher feliz ser

Queria morar contigo sob mesmo teto
Como a outra que nem se esforça
E estar plena, satisfeita por completo
Repousar naquela que é sua força

É de longe uma exigência de esposa
Quero espaço bem pequeno em sua vida
O lugar do peixe que em seu braço repousa
Deixar não só a pele, mas a vida colorida

sábado, 3 de dezembro de 2011

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Sonetos de amor - Elizabeth Barret Browning

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SONETO XIV

Tradução: Manuel Bandeira

Ama-me por amor do amor somente
Não digas: Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh'alma em comunhão constantemente
Com a sua.Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.


SONNET XIV

If thou must love me, let it be for nought
Except for love's sake only. Do not say
«I love her for her smile... her look... her way
Of speaking gently,... for a trick of thought

That falls in well with mine, and certes brought
A sense of pleasant ease on such a day» —
For these things in themselves, Belovèd, may
Be changed, or change for thee, — and love, so
[ wrought,

May be unwrought so. Neither love me for
Thine own dear pity's wiping my cheeks dry, —
A creature might forget to weep, who bore

Thy comfort long, and lose thy love thereby!
But love me for love's sake, that evermore
Thou may'st love on, through love's eternity.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Pelos Ares

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Não lhe peço nada
mas se acaso você perguntar
por você não há o que eu não faça

Guardo inteira em mim
a casa que mandei
um dia
pelos ares
e a reconstruo em todos os detalhes
intactos e implacáveis

Eis aqui
bicicleta, planta, céu,
estante cama e eu
logo estará
tudo no seu lugar

Eis aqui
chocolate, gato, chão,
espelho, luz, calção
no seu lugar
pra ver você chegar