sábado, 3 de julho de 2010

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

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(Para Lucas Santos)

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
Às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
Para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

TUDO O QUE NÃO INVENTO É FALSO

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Tenho um horário de trabalho privilegiado, principalmente para uma notívaga, como eu.
Ultimamente,mudei meus hábitos de transporte e voltei a ser a boa e velha devoradora de livros.
Meu apelido de infância foi bem premonitório: Bayana.
No fundo, no fundo, eu sabia que não me casaria com nenhum leitor assíduo.
Meu marido é um baiano típico, daqueles mesmos, que não nascem, estreiam.
E viver junto ,também, traz esse porém, a gente tenta tornar agradável o conviver, e nada mais desagradável do que viver com alguém que fica pendurado silenciosamente num livro.
Por isso meu ritmo mudou tanto.
Então, me deslocar pela cidade, todo os dias, de ônibus e metrô tem sido eufóricamente incrível.
Tanto que em duas semanas já estou no quarto livro.
Totalmente apaixonada por Diário de Um Ano Ruim do Cotzee. A gente termina a leitura, que tem recebido o adjetivo de desconfortável pela crítica, com a certeza de que J.M. é um gênio. E, com o ego inflado,estava na última página me se sentindo um pouco gênio também.
Mas o livro que quero ressaltar é o lindo : Histórias Inventadas – A Infância, de Manoel de Barros (Editora Planeta).O livro são folhas soltas, amarradas por 1 fita lilás e guardadas em 1 caixa de papel reciclado.
E o conteúdo ?!? Que conteúdo! Que profundidade, que primor.
Beleza pura.
Cheguei mais feliz e melhor na empresa em que trabalho, depois d’A Infância( e aguardo aflita pelo documentário biográfico do “poeta” : Só dez por cento é mentira).
Se o tivesse lido na quarta e não na quinta-feira saberia o que dizer num boêmio jantar, regado à bifes e batatas-fritas, em meio aos meus colegas de informática.
Acontece, “que eu não sou da informática:
eu sou da invencionática”.

sábado, 19 de junho de 2010

E AGORA, JOSÉ ?

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Por estes dias o país ficou excessivamente verde-amarelo.
Por onde quer que se vá, com quem seja que se encontre o colorido segue, mas foi também por estes dias mesmo que o mundo ficou mais gris.
José Saramago é infinitamente mais importante que a Copa do Mundo.
Pelo menos para mim.
E por isso, deixo aqui meu lamento. Sem ele o mundo perde um pouco do cheiro, um pouco do gosto, um pouco do tato e principalmente, um pouco da cor.
O único representante de nossa língua ganhador de um Nobel.
Mas sua enormidade não se resume nisso, Saramago foi muito mais; motivou idéias, fez rir, chorar, pensar, e sua grandeza é resumida em como dedicou o prêmio mais importante das Letras.
" ... dedico este prêmio ao meu avó, o homem mais sábio que conhecí em minha vida e que não sabia nem ler, nem escrever..."
Meu mundo, tá xôxo, cinzinha...
Um mundo sem boa literatura, é um mundo menos poético.
Anteontem foi Drummond, ontem Saramago, e agora, José?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

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Finalmente minha ansiedade foi controlada e deu lugar ao êxtase.
Que beleza é assistir um Tim Burton; obra de arte mesmo, fico extasiada.
Sou uma pessoa que raciocina muito , mas lentamente. Tenho até dificuldade para entender completamente uma obra. Mas , claro sempre tiro meu proveito, e aí é que está a beleza da Arte, nas tantas possibilidades.
Por exemplo, Drummond declarou que num dos vestibulares da USP havia uma questão sobre uma de suas obras que nem ele mesmo saberia responder.
Lamentei não ter lido a obra de Lewis Carroll antes de assitir ao filme, afinal, Alice de Tim é uma continuação (e aqui fica minha dica, leia Alice antes de assistí-lo e na versão 3D sente-se nas poltronas da frente, muito mais real).
Porém, meu propósito é falar de outra menina neste post, o nome dela é Thamires Pestana (tem Pest por apelido,e logo direi o porquê), tem 11 anos a menos que eu e trabalhamos na mesma empresa.
Thamires é muito inteligente, quase experiente, como se tivesse vivido 40 e não 20 anos, e é super sincera. Daquelas sem papas na língua, que se revolta com certos assuntos, ou simplesmente quer mostrar sua opnião e por isso expõe de maneira explícita suas idéias. A torto e a direito!
Eu , talvez não demonstre como ela, minha experiência adquirida em dias a mais, porém, por gostar da garota, fui fazer uso do que viví e dizer a ela que quando formos dar nossa opinião, de preferência, que seja solicitada por alguém.
Mas, ela me respondeu que não concordava comigo, e que dizia o que pensava, porque quer que as pessoas, reflitam e sejam melhores.
Nossa cultura brasileira é de omissão de opniões sinceras, quando sua amiga pergunta se o vestido que pagou tão caro não é vulgar, dizemos aquele murcho : É bonitoooo...
A beleza de Alice está em sua fabulosa mensagem, que às vezes precisamos enfrentar certas situções para descobrirmos nossa força e realmente quem somos.
A Alice de Tim Burton volta do País das Maravilhas Thamires Pestana, decidida e super sincera.
Algumas, pessoas podem, como eu fiz, questionar o jeito, a postura do outro, mas a sinceridade da Thamires é como a grande cabeça da Rainha Vermelha,não surgiu por feitiçaria ou encantamento.
Pode até causar estranhamento, mas faz parte da incrívelmente bela diversidade humana.
Outra lição de Tim.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

CRIA

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Eu estava perdidamente por você apaixonada
Principalmente por sua sinceridade demasiada
Você me traduzia tão sábia e facilmente
Transformando sentimentos duros em palavras,docemente

Eu te admirava e te exibia
Porque eu cria que tua singeleza tocaria
Até os corações mais adormecidos
E que depois de ti não se sentiriam esquecidos

Eu temia perder-te de tal forma
Que te carregava como um devoto torna
Leve carregar a pesada cruz nas costas
Te trazia em meu colo e nunca diria me esgotas

Havia te encontrado há pouco tempo
E nem sentia as horas passarem com o vento
Eu adormecia num sono tranquilo
Com a certeza de repetirmos tudo aquilo

De repente fui surpreendida, alguém te tomou-me
Sem entender-te, nem saber teu nome
Tú, ingenuamente, te deixastes levar
Eu, atônita mal sabia o quê falar

Até que depois de tanto sofrer
Como uma mãe que com tanto amor e querer
Perde seu filho sem entender o porquê
( Tú eras meu rebento e sem ti queria morrer)

Descobrí que não eras exatamente o que eu pensava
Era apenas o reflexo de algo que eu tanto buscava
Algo que não podia ser nunca roubado
Porque vivia dentro de mim guardado

Voltastes pelo mesmo caminho sem fim
Já que, na verdade, eu que de ti nascia
E tú não nascestes de mim
Eu tua cria, tú minha poesia


T.Pinheiro (depois de ser assaltada num farol da Praça da Sé e levarem uma de minhas poesias)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Tim Burton

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Enquanto aguardo ansiosa pela estreia de Alice No País das Maravilhas, me deleitei com mais uma surpresa deste cineasta que está na lista dos meus preferidos (se é que isso vale alguma coisa).
Gênio é gênio e a gente sabe disso. O cara além de toda sua linda sétima arte, tendo entre sua filmografia os seguintes títulos: Edward Mãos de Tesoura, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, A Fantástica Fábrica de Chocolate, "Sweeney Todd", banca de artista plástico.
E dos bons! Não por acaso tem, atualmente, uma exposição em um dos museus mais importantes do Mundo, o MoMA de Nova Yorque.
Bem, eu deixo aqui uma de suas obras, tem mais na internet é só buscar.
E viva o cinema!!!
Aquele que te entretém da melhor maneira, fazendo seu cérebro trabalhar.


Tim Burton. (American, b. 1958) Blue Girl with Wine. c. 1997. Oil on canvas, 28 x 22" (71.1 x 55.9 cm). Private Collection. © 2009 Tim Burton

domingo, 4 de abril de 2010

PODEMOS VENCER ?????

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NESTE MUNDO DE CULTURA TÃO ACESSÍVEL ( O MUNDO DOS MEUS SONHOS DE DEZ ANOS ATRÁS ), SURGEM CERTOS “PORÉMS”(VIVA GUIMARÃES ROSA!), QUE SÃO JUSTAMENTE UM CERTO SUOR DESAGRÁDAVEL DE SONHO TÃO PERFEITO.
EU SEMPRE QUIS TER ACESSO À TODOS OS FILMES , DISCOS , PEÇAS , EXPOSIÇÕES , LIVROS E SHOWS.
É COMO SER MISERÁVEL E SONHAR EM SER MILIONÁRIO. A GENTE NUNCA IMAGINA O QUE VEM NO PACOTE.
ASSISTO A MUITOS FILMES, COMO SEMPRE SONHEI, TANTOS QUANTO O ZÉ WILKER, E NA MAIORIA DAS VEZES ACHO QUE ESTOU PERDENDO MEU TEMPO.
CONHECÍ HÁ QUASE DEZ ANOS UM CINEASTA CHAMADO CAIO PLESSMANN QUE ME DIZIA QUE O CINEMA ESTAVA MORTO, NÃO QUIS E NÃO QUERO ACREDITAR !
MAS, ÁS VEZES ACHO QUE ESTOU PERDENDO MEU PRECIOSO TEMPO ...
HÁ RARAS EXCESSÕES QUE ME FAZEM ACREDITAR QUE NÃO SÓ O SAMBA NÃO MORREU, COMO TAMBÉM O CINEMA VIVE. NÃO ME LEMBRO UM QUE POSSA AGORA RECOMENDAR, MAS A MINHA DISPOSIÇÃO EM ESCREVER MAIS ESTE POST (QUE SEI QUE NINGUEM LERÁ) TEM OUTRO MOTIVO.
É RELACIONADO A UM FILME QUE ASSISTÍ HOJE E QUE ME FAZ REFLETIR SOBRE OUTROS TEMAS, OU AO MESMO TEMA DE SEMPRE, DA MINHA VIDA, DAS MINHAS IDÉIAS, DAS MINHAS CONVERSAS E MEIO SEM QUERER, E CONSEQUENTEMENTE, DESTE BLOG.
O FILME É : “A DUQUESA ( THE DUCHESS) , NÃO RESSUCITARIA O CINEMA, MAS VALE PELA HISTÓRIA:
GEORGIANA SPENCER (KEIRA KNIGHTLEY ) CASOU-SE AOS 18 ANOS COM O DUQUE DE DEVONSHIRE ( RALPH FIENNES), QUE QUERIA A TODO CUSTO TER UM FILHO. POSSUINDO O TÍTULO DE DUQUESA DE DEVONSHIRE, LOGO GEORGIANA DEMOSNTROU SUA INTELIGÊNCIA E PERSPICÁCIA PERANTE A CORTE INGLESA. MESMO SENDO UMA MULHER EXTREMAMENTE INTERESSANTE DEPARA-SE DIVERSAS VEZES COM A INFIDELIDADE DO MARIDO, INCLUSIVE CRIANDO UMA MENINA, FILHA DO DUQUE DE UMA RELAÇÃO EXTRACONJUGAL.
ELA NÃO CONSEGUIA DAR UM FILHO AO DUQUE, COM TODAS SUAS TENTATIVAS DE FICAR GRÁVIDA RESULTANDO EM ABORTOS OU EM FILHAS. O DUQUE AINDA PERMITE QUE UMA DE SUAS AMANTES CONVIVA COM ELES EM SUA CASA E POR MAIS PERSPICAZ E INTELIGENTE, GEORGIANA ACABA SUPORTANDO TODA HUMILHAÇÃO PARA NÃO PERDER A POSSE DOS FILHOS. SEU SOFRIMENTO PROSSEGUE NO FILME, E TAMBÉM ATÉ O ÚLTIMO DIA DE SUA VIDA.
É APENAS MAIS UMA HISTÓRIA DE RESIGNAÇÃO FEMININA, E NEM PARECE QUE ACONTECEU HÁ QUASE TREZENTOS ANOS ATRÁS.
CONHEÇO HISTÓRIAS, MUITO OU POUCO, PARECIDAS COM ESTA QUE ACONTECERAM HÁ 30, 20 ANOS E TALVEZ ACONTEÇAM AINDA HOJE.
E O QUE ME DEIXA FELIZ É QUE MINHA LUTA, FEMININA E CONSCIENTE, ME PERMITIU PENSAR, REFLETIR , CONTINUAR LUTANDO E SEI QUE UMA DAS CONQUISTAS DESTA LUTA É TER AO MEU LADO O HOMEM QUE EU AMO, E QUE EM CONTRAPARTIDA ME AMA , ME RESPEITA E QUE ENQUANTO EU ASSISTÍA AO FILME ME PREPARAVA UM SABOROSO ALMOÇO, NÃO DE FORMA SUBMISSA, MAS SIM DE FORMA AMOROSA.
PODEMOS OU NÃO VENCER ?!!!?